11 de agosto de 2013

Pai nosso de cada dia

Pai nosso, que estás na terra, santificado seja o vosso nome.
Venha a nós o vosso reino. Hoje é seu dia.

Ao nosso pai de todos os dias que habita o nosso reino, ao meu pai de toda uma vida, vai meu texto e homenagem de hoje.




Pai, divindade na terra. Pai de lutas e batalhas mundo afora. Pai-coragem. Tantos pais eu tenho num só e quantos pais vocês têm em seus mundos. O pai, o papai, palavras primeiras de uma infância.

Histórias sem fim, eu sei. Mas história do meu pai é história. Para se aprender. Meu pai foi e é singular. História viva. Egípcio, sonhador, determinado. Família de origem palestina (por parte de pai) e libanesa (por parte de mãe), vivia no Cairo. Falava francês em casa, árabe no dia a dia. Lá pelo fim dos anos 50, descobriu que o Brasil era o país do futuro e acreditou; em acreditando, fez as malas, comprou um curso de português com fitas-cassete, juntou cem dólares e partiu para o Rio de Janeiro.
Coragem de pai-herói verdadeiro, para ele apenas um grande desafio.


Talvez ele não saiba, mas minha impetuosidade, minha certeza de que tudo vai dar certo vem dele. Ele que me ensinou que nada é impossível em lugar nenhum do mundo. Ele que me ensinou que devemos respeitar e amar verdadeiramente os que estão a nossa volta. Ele que me ensinou a perdoar e me ensinou a perseverar.

Ele, silenciosamente, com seus gestos amorosos e sua intensa bravura, me deu a vida e a inspiração. A minha vida passa, as nossas vidas passam e, por vezes, nos esquecemos de confidenciar agradecimentos. Se eu tiver esquecido ou agradecido pouco pela nossa estrada, te agradeço de novo e enormemente, meu pai.

Meu pai nunca temeu adversidades: nem o novo mundo, nem a nova língua, a sobrevivência, os novos amigos. Sempre olhou a vida abertamente e deixou que ela viesse para fazer dela o melhor possível.

Na época da ancoragem no Rio de Janeiro, chorou enquanto olhava o mar e escutava o português. Escutava tanto, repetia tanto que hoje em dia escreve melhor que 99% dos brasileiros, posso lhes afirmar. O choro virou força, virou garra, virou rio de histórias.

O seu encontro com a minha mãe, vinda lá de Pernambuco, outra linda história, me fez e fez minha irmã. Se hoje estamos aqui, temos fibra, honestidade, lealdade, tivemos grandes professores em casa. Aulas diárias, ensinamentos constantes. Até hoje. Até no dia dos pais.

Em 2006, meu pai decidiu a voltar ao Egito quase 50 anos depois. E me chamou para ir com ele. E eu fui. E aquela viagem ainda me faz viajar, poesia e lindeza pura, extrema. Quando olhei as pirâmides, de longe, pelo avião, minhas pernas tremeram. Acabava descobrir uma parte de mim que eu desconhecia e meu pai com duas novas-velhas faces, cantarolando em árabe como se nunca tivesse saído de lá.

A esfinge, as pirâmides. Meu pai e as pedras da pirâmide, pedra por pedra construída e empilhada. Trabalho árduo como ele havia feito no Brasil. Construído muitas pirâmides, construído um novo chão, espaço.






A viagem ao Egito foi e sempre será a viagem da minha vida. Eu nunca esquecerei o olhar do meu pai, o meu e o seu deslumbramento naquele país tão único. Os encontros com tantas coisas perto do coração e longe da minha vã imaginação. Eu nunca imaginei tanto brilho em nossos olhos, tanta vibração em nossas almas.

No meio da primavera árabe, tinha uma escola. E a escola continuava lá, imponente, escola de padres. católica. A escola parecia que preparava uma recepção festiva com a nossa chegada. Tudo novidade e reencontro. 




Incrivelmente que, numa viagem se aprenda tanto dentro de uma escola e fora dela. Fora de série, as sensações tão próximas que nos arrebatavam o tempo todo como se tudo aquilo fosse cotidiano e as veias árabes nada mais que nosso dia a dia.

Naquela viagem, meu pai, ao invés de você que descobriu o Brasil, eu descobri você, a mim mesma e um país fantástico. Na nossa viagem, descobri raízes, pontes, ligações e sentidos mágicos.

Naquela viagem, descobri o que significa amar um país como você amou, ama e veste o Brasil.

E, na nossa viagem pela história, pai, na minha viagem até os 50 anos, descubro e redescubro todos os dias a fonte em que eu bebi a água dos sonhos.

Sua fonte, pai, sua vida.
Obrigada por ter me dado o nascimento, a alegria e a certeza de que tudo vai dar certo e será sempre melhor.

No dia dos pais, pai meu de cada dia, declaro batendo no peito de orgulho: eu tenho o melhor pai do universo. E eu te amo muito, pai.

Beijos e meu carinho multiplicado, somado e cada vez mais intenso aos meus 49 anos.




MAIS RECENTES

ASSINE POR EMAIL

Copyright © 50 COISAS ANTES DOS 50 - VERA LORENZO

Todos os Direitos Reservados