25 de junho de 2015

Mister Rio

Mister Rio chegou ao Brasil e, apesar de seu nome nos induzir a pensar que se tratava de um brasileiro, era genuinamente americano.

Por sorte do destino, Mister Rio havia nascido no dia de São Sebastião do Rio de Janeiro e sua mãe, historiadora americana e apaixonada pela cidade maravilhosa, escolheu o seu nome de pronto:

- Querido – disse Susan docemente ao marido – vamos chamá-lo de Rio.
- Well – retrucou seu marido Jonathan – existem bons motivos para isso....

Era manhã e um vôo internacional aterrissava no Aeroporto Tom Jobim, trazendo na boléia Mister Rio. Sozinho e pensativo. Haviam alguns indícios sobre a origem de seu nome e, se isso era correto, ele gostaria de verificar por si mesmo.

Rio falava Português com uma clareza singular entre seus conterrâneos. Sabia que aqui havia samba, mulatas, crianças de rua, caipirinha, Copacabana e que a nossa canção “Garota de Ipanema” era sucesso internacional.

Sabia também da violência, das drogas, da corrupção, até mesmo sobre nossas favelas. E, claro, ouviu falar do nosso futebol!

Chefe de reportagem de um dos maiores jornais do Estado de Nova Iorque, Rio aprendeu a inquirir, questionar, trazer à tona o que considerava importante. Fazia parte de sua rotina.

Do Tom Jobim a Copacabana, foram 40 minutos e Mister Rio começava uma longa viagem rumo ao significado do seu nome e da paixão de sua mãe por aquela cidade.

Em sua pauta, constava: entrevistar todos os tipos de pessoas nas ruas e perguntar o que Rio significava para elas.

De posse de um gravador portátil, ele iniciou os questionamentos com o taxista que o conduziria até o hotel:

- Perdão – desculpou-se meio desajeitado - o que significa Rio para o senhor?

- Bem... – o taxista coçou a careca, passou a mão no queixo levemente e balbuciou – agito, movimento de todos os tipos de pessoas, raças, barulho, gente, muita gente. Acho que é isso. O senhor vai gravar?

- Well – respondeu Rio como seu pai Jonathan o faria se lá estivesse – já gravei. Obrigado .

E lá se foram os dois calados e pensando sobre pergunta e resposta. Rio aportou no seu hotel em Copacabana de frente para o mar e, enquanto preenchia sua ficha completa no hotel, fitou a recepcionista e conferiu:
- Madame, o que significa o Rio para a senhora?

- Ah, sim...deixe-me pensar – a recepcionista não hesitou em dar seu parecer – Rio é alegria, uma cidade tão cheia de vida, em verdadeiro estado de graça. Que outra cidade tem essa sorte?

- Obrigado, madame, pela informação – agradeceu friamente - por favor a chave do quarto.

- O nosso segurança vai acompanhar o senhor até lá – explicou a recepcionista – o carregador não veio hoje.

- Não tem problema – explicou Rio, sem denotar nenhum estranhamento.

Juntinhos no elevador, gravador novamente na mão, esperando o momento perfeito para agir, Rio aguardou até a porta do apartamento.

O segurança de nome Jorjão não entendeu aquela parafernália e Mister Rio, impaciente, foi direto ao ponto:

- Senhor Jorjão, o que significa Rio para o senhor?

Duas gargalhadas mais adiante e Jorjão reagiu como se fosse uma brincadeira:

- Rio é como eu, doutor – mantendo o sorriso entre os lábios - é forte como suas montanhas, agüenta tudo que acontece e continua firme e forte.

- Muito interessante sua resposta, Senhor Jorjão. Muito interessante... – e assim adentrou o seu quarto.

Pediu no restaurante o conhecido ovos com bacon e torradas. Estava cansado demais para descer e visitar alguma coisa naquela hora do dia.

Depois de um sono reparador, lá pelas tantas, Mister Rio resolveu ir à praia, passear no calçadão.

Sentadinho num quiosque de praia, o Senhor Manoel tomava sua água de coco, admirando a paisagem. Mister Rio aproximou-se sorrateiramente, assustando o pobre velhinho com a expressão em inglês:

- May I? (Posso?)

- Sei lá – deu de ombros Manoel indignado – eu não falo inglês.

- Oh, desculpe, eu queria sentar aqui. Posso?

- Sim – assentiu Manoel, desarmando Mister Rio.

- Posso perguntar o que significa o Rio para o senhor?

- Minha nossa.......Rio é tão complicado de entender, você não imagina como é difícil explicar.

- Por favor me explique – tentou Mister Rio.

- Rio, meu Senhor – deu uma pausa e respirou - é bom e ruim, é maravilhoso e, às vezes, assustador, é lindo e horrível, é uma mistura de coisas normais e naturais de um ser humano que se transportam para uma cidade.

- Entendo... – aquiesceu Rio.

Reanimado pela energia da água de coco consumida ao lado do velhinho, Mister Rio prosseguiu para a praia. Com aquele jeito “tropical”, sandálias e meias e chapéu de palha, foi logo reconhecido como um ser de outro país. Uma mulata se deitou ao seu lado, assim que ele se instalou na toalha.

- Good morning, darling! (Bom dia, querido!) – detonou, exibindo suas curvas claramente para o estrangeiro.

- Bom dia – retornou Mister Rio – como vai a senhora?

- Você fala português?

- Sim. Você também? – permeou Mister Rio num estado de alerta.

- Posso ficar pertinho de você?

- Claro, mas preciso de uma resposta sua.

- Com todo o prazer – animou-se a mulata assanhada.

- O que significa Rio para você?

- É isso mesmo que você quer perguntar? – olhou, verificando a cabeça do estrangeiro que tendia para cima e para baixo, num óbvio sim, e vigorosamente desapontada.

- Ah, Rio é paixão, amor, isso que você sente no ar, na brisa....você sente na pele.....o senhor ainda não sentiu essa paixão? Quer sentir? – insistiu.

- Não, senhora, mas eu só queria mesmo saber sua opinião – finalizou Mister Rio.

Trinta minutos mais tarde e já liberado da mulata que desistira da investida, Mister Rio vê um surfista e sua prancha saírem do mar.

Ligou o gravador e foi até o surfista.

- Boa tarde, senhor, pode me ajudar?

- Qual é, cara? Tá com problema?

- Não tenho problema. Tenho perguntas.

- O que significa o Rio? – questionou enigmático.

- Ah, cara, Rio é tudo, é mar, esse oceano gigantesco que lava nossa alma, é azul, verde, todas as cores, é demais, cara, é demais.

Não entendeu palavra por palavra, o contexto parecia fazer sentido. Isso lhe era suficiente no momento.

Um pouco mais adiante, avistou um músico e seu violão. De gravador em punho, olhou para o músico e a mesma pergunta surgiu:

- Oi, tudo bem? Posso fazer uma pergunta?

- Faz que vou ver se respondo – disse o músico ressabiado.

- O que significa o Rio pra você?

- Puxa, gostei da pergunta... Rio é música que toca fundo no coração da gente, e inspira, respira e faz a gente transpirar de emoção. Sacou?

- Sim – respondeu Mister Rio entre lacônico e contemplativo – agradeço sua contribuição – emendou num congelado fechamento de conversa.

Retornando ao hotel, após sua maratona de reportagens, apertou o botão “liga” de seu gravador e ouviu repetidamente o que as pessoas tinham para contar.

Silenciou. Pensava em sua mãe Susan. Para ela , Rio era amor e paixão, sentimentos que existiam no momento em que ele mesmo, Mister Rio, fora concebido. E que tudo que ela desejava é que seu filho fosse o Rio que o Rio era: a alegria, a força, a energia, a complexidade e beleza da vida, a densidade do mar, a música.

No momento em que Mister Rio escutava tudo aquilo, lembrou de sua mãe e da emoção que essas respostas, aparentemente sem sentido, lhe traziam. E alguma coisa o tocou.

Ali, Mister Rio descobria sobre a paixão e o amor do Rio pelo Rio. Um amor que agora eu me encarregava de registrar.  









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