Mister Rio chegou ao Brasil e, apesar de seu nome nos induzir a pensar que se tratava de um brasileiro, era genuinamente americano.
Por sorte do destino, Mister Rio havia nascido no dia de São Sebastião do Rio de Janeiro e sua mãe, historiadora americana e apaixonada pela cidade maravilhosa, escolheu o seu nome de pronto:
- Querido – disse Susan docemente ao marido – vamos chamá-lo de Rio.
- Well – retrucou seu marido Jonathan – existem bons motivos para isso....
Era manhã e um vôo internacional aterrissava no Aeroporto Tom Jobim, trazendo na boléia Mister Rio. Sozinho e pensativo. Haviam alguns indícios sobre a origem de seu nome e, se isso era correto, ele gostaria de verificar por si mesmo.
Rio falava Português com uma clareza singular entre seus conterrâneos. Sabia que aqui havia samba, mulatas, crianças de rua, caipirinha, Copacabana e que a nossa canção “Garota de Ipanema” era sucesso internacional.
Depois de um sono reparador, lá pelas tantas, Mister Rio resolveu ir à praia, passear no calçadão.
Sentadinho num quiosque de praia, o Senhor Manoel tomava sua água de coco, admirando a paisagem. Mister Rio aproximou-se sorrateiramente, assustando o pobre velhinho com a expressão em inglês:
- May I? (Posso?)
- Sei lá – deu de ombros Manoel indignado – eu não falo inglês.
- Oh, desculpe, eu queria sentar aqui. Posso?
- Sim – assentiu Manoel, desarmando Mister Rio.
- Posso perguntar o que significa o Rio para o senhor?
- Minha nossa.......Rio é tão complicado de entender, você não imagina como é difícil explicar.
- Por favor me explique – tentou Mister Rio.
- Rio, meu Senhor – deu uma pausa e respirou - é bom e ruim, é maravilhoso e, às vezes, assustador, é lindo e horrível, é uma mistura de coisas normais e naturais de um ser humano que se transportam para uma cidade.
- Entendo... – aquiesceu Rio.
Reanimado pela energia da água de coco consumida ao lado do velhinho, Mister Rio prosseguiu para a praia. Com aquele jeito “tropical”, sandálias e meias e chapéu de palha, foi logo reconhecido como um ser de outro país. Uma mulata se deitou ao seu lado, assim que ele se instalou na toalha.
- Good morning, darling! (Bom dia, querido!) – detonou, exibindo suas curvas claramente para o estrangeiro.
- Bom dia – retornou Mister Rio – como vai a senhora?
- Você fala português?
- Sim. Você também? – permeou Mister Rio num estado de alerta.
- Posso ficar pertinho de você?
- Claro, mas preciso de uma resposta sua.
- Com todo o prazer – animou-se a mulata assanhada.
- O que significa Rio para você?
- É isso mesmo que você quer perguntar? – olhou, verificando a cabeça do estrangeiro que tendia para cima e para baixo, num óbvio sim, e vigorosamente desapontada.
- Ah, Rio é paixão, amor, isso que você sente no ar, na brisa....você sente na pele.....o senhor ainda não sentiu essa paixão? Quer sentir? – insistiu.
- Não, senhora, mas eu só queria mesmo saber sua opinião – finalizou Mister Rio.
Trinta minutos mais tarde e já liberado da mulata que desistira da investida, Mister Rio vê um surfista e sua prancha saírem do mar.
Ligou o gravador e foi até o surfista.
- Boa tarde, senhor, pode me ajudar?
- Qual é, cara? Tá com problema?
- Não tenho problema. Tenho perguntas.
- O que significa o Rio? – questionou enigmático.
- Ah, cara, Rio é tudo, é mar, esse oceano gigantesco que lava nossa alma, é azul, verde, todas as cores, é demais, cara, é demais.
Não entendeu palavra por palavra, o contexto parecia fazer sentido. Isso lhe era suficiente no momento.
Um pouco mais adiante, avistou um músico e seu violão. De gravador em punho, olhou para o músico e a mesma pergunta surgiu:
- Oi, tudo bem? Posso fazer uma pergunta?
- Faz que vou ver se respondo – disse o músico ressabiado.
- O que significa o Rio pra você?
- Puxa, gostei da pergunta... Rio é música que toca fundo no coração da gente, e inspira, respira e faz a gente transpirar de emoção. Sacou?
- Sim – respondeu Mister Rio entre lacônico e contemplativo – agradeço sua contribuição – emendou num congelado fechamento de conversa.
Retornando ao hotel, após sua maratona de reportagens, apertou o botão “liga” de seu gravador e ouviu repetidamente o que as pessoas tinham para contar.
Silenciou. Pensava em sua mãe Susan. Para ela , Rio era amor e paixão, sentimentos que existiam no momento em que ele mesmo, Mister Rio, fora concebido. E que tudo que ela desejava é que seu filho fosse o Rio que o Rio era: a alegria, a força, a energia, a complexidade e beleza da vida, a densidade do mar, a música.
No momento em que Mister Rio escutava tudo aquilo, lembrou de sua mãe e da emoção que essas respostas, aparentemente sem sentido, lhe traziam. E alguma coisa o tocou.
Ali, Mister Rio descobria sobre a paixão e o amor do Rio pelo Rio. Um amor que agora eu me encarregava de registrar.