8 de outubro de 2013

Final feliz

Alguns momentos da vida nos passam desapercebidos. Ou os momentos simplesmente passam. E o fio invisível do certo e incerto, da vida e da morte são tênues como a brisa de início da manhã.

No domingo passado, houve uma parada para o susto e a reflexão. Éramos 7 a percorrer as águas cariocas no Quebra-Mar da Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. Às 8.30h  todos a postos na busca do esporte, do relaxamento e do agrupamento, reunião informal de pessoas.



O objetivo era remar, subir na prancha de stand up paddle e remar no canal tranquilo do Quebra-Mar. Talvez mais do que isso o objetivo era estar junto, reunido, na corrente vibrante que formamos no domingo de manhã. Uma corrente do bem, forte e verdadeira.


Tudo nos conformes. Solzinho na área, mar "flat" (liso no vocabulário de quem entende do mar), prancha escolhida, remo. Bastava ajoelhar, olhar ao longe e subir na prancha.


É facílimo, um pouco de equilíbrio é necessário, um treino para aprender a utilizar os remos e foi dada a partida. Eu, como a mais experiente do grupo em stand up paddle, curtia aquele ventinho fresco da manhã silenciosa de domingo. Todas as outras e o instrutor se seguiam um a um rumo ao canal logo abaixo do viaduto.

Lindo dia, pessoas incríveis. A conjunção era interessante e tudo que a gente queria era mais e mais interação e fisicamente sentir que pernas e braços podiam muito e que a mente podia navegar.

No grupo, duas marinheiras de primeira viagem, Vivi e Leila, uma pernambucana e uma amazonense, aceleraram o retorno para a areia, enquanto brincávamos nas águas calmas para lá e para cá.

Duas - Dani e Clara - resolveram surfar nas ondinhas do Quebra-Mar com a prancha de stand up e claro que me uni rapidamente a elas: sempre movida a desafios. Minha amiga Andréa de muitos anos, mais de 30, passou por nós e parecia brincar também de remar ou fazer uma tentativa de surfar. Parecia.

Nós três - eu, Dani e Clara - ríamos de cada caída da prancha, o instrutor conosco e, de repente, ele avisou: vou buscar a Andréa. Como o mar estava bem calmo onde estávamos, batia no nosso joelho, continuamos nossas idas e vindas nas ondas já cansadas de tanto cair.

Virei-me num instante e não vi mais Andréa nem instrutor. Vi um mar vazio com ondas fortes perto do pier e me desesperei. A única coisa que conseguia fazer era gritar Andréa para o lado de trás e gritar Leila para o lado da areia. Leila nada ouvia de onde estava e não fazia ideia do que se passava. Do lado da Andréa nem um só ruído.

Logo depois, um guarda-vidas irritado passava por nós três gritando que não deveríamos estar ali, que devíamos ter ouvido o apito. Sinceramente, nem sabemos o porquê, nada chegou aos nossos ouvidos.

Aqueles rápidos momentos pareciam segundos como pareciam horas, dias, meses. Puxei remadas fortes e intensas, tão intensas que nem percebi parar na hora em que aportamos na areia.

Voltando ao domingo na lembrança, senti o corpo tremer por inteiro e tinha que reagir. Eu e Dani descemos da prancha e assustadas aceleramos que nem loucas rumo ao pier para ver a Andréa. Nada, não havia nada lá. Nem ninguém nas águas. Só duas pranchas boiando sozinhas.

Fotos de Paulinha Coelho - coincidentemente achadas no Facebook.



Nem sei se eu gritava, urrava. Assim surgiu uma voz avisando que os bombeiros haviam caído na água para salvamento. Alguém entre a multidão que assistia à cena avisou que dois jet-skis estavam a caminho da minha amiga.

Ainda assim, não havia amiga, instrutor, jet-ski, nada. Instantes de puro terror. Não há como descrever de forma diferente o que passei naquele instante.

O fio da alegria e do desespero se colaram ali, sem se soltar. Eu rezava, pedia ajuda, não sei nem o que eu pensava, porque os pensamentos corriam rapidamente e quem nem as cataratas na minha cabeça. Meu pensamento estava sob o mar.

Correntezas de coisas loucas invadem suas ideias e a angústia é tão grande que fica difícil pensar.
Vida e morte divididas por um triz. Escolhas certas ou erradas num piscar de olhos.

Eu já meio sem ar, Dani com taquicardia, veio o alívio aos berros dos bombeiros. O jet-ski estava se aproximando, trazia alguém!

Disparei com a Dani novamente rumo à praia, acho que corri mais rápido do que todos os corredores juntos naquele momento. De onde se tira forças para isso naquela hora, não sei. A força máxima que a amizade pode ter, foi meu combustível de arranque.

Ao longe, um jet-ski, um bombeiro pilotando, uma prancha atrás com duas pessoas. Gente, meu coração pulou. Era a Andréa sã e salva!!!!

Se você não tem abraçado seus amigos, abrace-os. Abracei Andréa com a força da minha felicidade e alegria reconquistadas. Ela sobreviveu. Andréa, como você é importante nesse mundo.

Ali na beira da praia, eu, Andréa, bombeiros, Dani, Leila respiramos profundamente e sorrimos. Deus havia escolhido nos presentear com a vida.

Mais tarde, quem sabe, as sensações passem, os agradecimentos esses sim serão perpetuados.
Os bombeiros salvaram uma vida, salvaram uma amizade linda e salvaram uma pessoa extremamente especial.



Claro que depois daquela manhã, pensaremos de outra forma. Seremos mais prudentes, mais cuidadosos com a nossa vida e de quem queremos bem.

Claro que agora daremos valor a cada pequena coisa que faremos juntas por aí. Muito está
por vir. As alegrias só serão somadas a mais alegrias.

Típico final feliz.
Obrigada, Deus, por ter me ensinado tanta coisa numa manhã simples de domingo.

Beijos carinhosos.

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